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Reginaldo Marinho

/\/\/\/\/\”As estruturas são a materialização das forças que atuam em um projeto.” Pier Luigi Nervi /\/\/\/\/\

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Jornal do Brasil

JORNAL DO BRASIL                             Domingo, 07 de maio de 2000


Um inventor brasileiro para o mundo

Paraibano é premiado e negocia na
Europa com estruturas de plástico para
a construção civil, desprezadas no Brasil

ARAUJO NETTO
Correspondente

ROMA - Cansado de ser esnobado por homens de governo e empresários do Brasil, o inventor Reginaldo Marinho decidiu procurar no exterior o que seu país lhe negou. Contraindo uma dívida que continua a lhe tirar o sono, mandou-se para Genebra, na Suíça, para participar do importante Salão Internacional de Invenções da Europa, realizado entre os dias 12 e 16 do mês passado. Ao término do qual se encontrou com uma medalha de ouro conferida por um júri internacional, uma oferta de um milhão de francos suíços que lhe foi feita pelo Fundo de Desenvolvimento Tecnológico (Fondetec) da Organização de Promoção Industrial do Cantão de Genebra para viver e trabalhar na cidade e propostas de quatro grandes empresas européias (três italianas e uma francesa) para transformar em tecnologia o método revolucionário que inventou e denominou Construcel, de construção celular. Além de convites para visitar a África do Sul e a Austrália, onde também encontrará gente interessada em negociar a aplicação do seu método.
Alternativa - Método que possibilitará a construção de todo tipo de casa, edifício e instalações esportivas ou industriais sem as estruturas até aqui usadas em todo o mundo: as convencionais estruturas metálicas, de cimento armado ou de madeira. O brasileiro propõe estruturas de plástico como alternativa mais econômica e mais racional, pois evitará o desperdício de material: “Você leva para a obra só as peças que serão utilizadas.” A montagem das construções será mais rápida, realizada por mão-de-obra mais reduzida, vantagens que facilitarão principalmente a implantação de projetos emergenciais em casos de catástrofes e abalos sísmicos que demandam a rápida construção de abrigos.
No Brasil, o melhor que Reginaldo obteve depois de um ano (1999) perdido em peregrinações a ministérios, universidades, centros técnicos, governos estaduais, institutos de pesquisas tecnológicas e vários empresários nacionais e multinacionais foi um convite para trabalhar como gerente comercial - “na verdade um cargo de vendedor de luxo” - de uma indústria baiana à qual ofereceu a possibilidade de decuplicar sua produção de policarbonato (resina termoplástica sintética) financiando a construção de um protótipo da mais recente de suas invenções, já comparada a um novo ovo de Colombo.
Exílio - Antes de tomar a decisão de procurar no resto do mundo o que não encontrou no Brasil, Reginaldo fez tudo para não se afastar de casa percorrendo pela segunda vez a estrada do auto-exílio. Experiência que tinha feito entre 1977 e 79, quando a ditadura militar o incentivou a viver em Barcelona. Uma de suas últimas e desesperadas tentativas foi uma carta enviada a 22 de setembro de 1999 ao presidente Fernando Henrique Cardoso. “Com todo respeito, Excelência, acabou a minha paciência. Depois de bater em tantas portas, todas fechadas e bem travadas, optei novamente pelo exílio voluntário. Na primeira vez, como Vossa Excelência também o fez, foi por discordar de uma ditadura militar e agora por discordar de uma ditadura monetarista que impede o desenvolvimento nacional”.
Hoje, discutindo com os europeus, sul-africanos e australianos as melhores condições para o desenvolver sua invenção, Reginaldo perdeu a esperança de receber uma resposta qualquer do presidente.
“O Brasil é um país que não valoriza a tecnologia nacional. Quando muito, os recursos governamentais são destinados a pesquisas acadêmicas. Quando se trata de transformar em tecnologia o resultado das pesquisas, o Brasil prefere não dar o passo seguinte. Eu estive no Ministério da Tecnologia, em Brasília, onde mostrei e expliquei o meu projeto. Todos se disseram encantados mas logo me fizeram saber que o governo só podia financiar até onde eu havia chegado, isto é, o que já existia. Daí para a frente eu teria que buscar a empresa privada. Busquei várias. Em todas elas bati com a cabeça na parede.

Inspiração etrusca

ROMA - Antes de embarcar para Milão e Bolonha, onde o esperavam dois empresários italianos dispostos a se associarem a ele na fase de industrialização e comercialização das casas, edifícios, ginásios, armazéns e hangares arredondados, triangulares e cilíndricos, construídos sobre suas inéditas estruturas de policarbonato, Reginaldo Marinho, paraibano nascido há 50 anos na pequena Sapé (”pátria de abacaxi bom”), no qual muitos vêem um sósia do ator escocês Sean Connery, aceitou o convite para explicar mais detalhadamente sua invenção.
“Tenho um amigo, muito generoso, que me considera o descobridor do segundo Ovo de Colombo, porque uso tecnologia e instrumentos de engenharia mundialmente conhecidos desde os etruscos. Como o arco de compressão, que já era empregado pelos antigos etruscos e romanos nas mais diversas construções, como palácios, pontes e catedrais. Sempre com o objetivo de permitir que cada bloco pressionasse um outro, para que a construção ganhasse muito em flexão e evitasse o risco de cair.”
O inventor explica que outro fundamento da engenharia utilizado na tecnologia por ele projetada é a treliça, que dá às construções uma estrutura muito rígida. “Juntando-se o arco de compressão à treliça, temos como conseqüência uma figura muito sólida, portanto muito moderna, apesar de inspirada em um conhecimento muito antigo. Chamamos de treliça um elemento estruturado com uma forma triangular.”
Essa forma, prossegue Marinho, faz com que a distribuição da carga se faça por todas as partes do triângulo. Nessa tecnologia já está embutida também um colchão de ar, que lhe assegura um perfeito isolamento térmico e impede a interação do calor interno com o externo. “Do ponto de vista econômico, as vantagens oferecidas pelas minhas estruturas de policarbonato podem ser consideradas excepcionais”, vangloria-se. “Qualquer construção de armazéns, silos, hangares, ginásios, edifícios e casas populares custaria no mínimo 30% a menos que as construções com estruturas convencionais”.
Em Genebra, os dois jurados do Salão Internacional das Invenções que examinaram, discutiram e questionaram Reginaldo Marinho sobre cada premissa, teoria e cálculo de sua “Construcel” - já patenteada em 32 países - foram convencidos pelo inventor brasileiro sobre a possibilidade de empregar seus módulos prismáticos de plástico nas construções de silos, galpões, estufas, ginásios esportivos e até de casas populares. (A.J.)

Sem vez no país

ROMA - Sobre as dificuldades encontradas, Reginaldo Marinho pergunta: “Isso não ocorreria porque o Brasil continua a ser ‘um deserto de homens e idéias, onde nada se cria e tudo se copia’, como o definiu há mais de 50 anos Oswaldo Aranha, um dos políticos mais inteligentes de seu tempo? Porque a verdade é que o empresário brasileiro não gosta de pagar imposto e muito menos royalties. O empresário brasileiro talvez seja o mais ‘globalizado’ do mundo. A ele não importa que nos últimos cinco anos o país tenha aumentado oito vezes os gastos com a importação de tecnologia. Segundo dados do IPEA, atualmente o Brasil gasta mais de US$ 1 bilhão por ano em importação de tecnologia”.
O inventor prossegue: “Hoje temos milhares de pesquisadores e inventores em atividade por todo o país, isolados, sem qualquer apoio governamental, financiando-se com seus próprios recursos - criando produtos e tecnologias sem a menor possibilidade de viabilizá-los. Temos mesmo casos escandalosos de descobertas e invenções feitas por brasileiros, expropriadas e exploradas indevidamente por empresas e grupos internacionais, sem que nosso governo esboce sequer uma reação de protesto. Casos como o da longa pesquisa do professor Sérgio Ferreira sobre a influência do veneno da jararaca no organismo humano. Veneno que ele, presidente por duas vezes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, identificou depois de sintetizar seu princípio ativo, como um valioso medicamento para o coração, um eficiente vasodilatador. Resultado que o professor Ferreira divulgou e uma poderosa indústria farmacêutica patenteou como de sua propriedade e transformou num remédio que hoje lhe rende US$ 2 bilhões por ano. Outro caso penoso e ao mesmo tempo risível é o da invenção do Bina, um instrumento identificador de chamadas que hoje se encontra em todos os telefones celulares e movimenta um mercado de US$ 8 bilhões em todo o mundo. Bina que foi descoberto, produzido e até patenteado no Brasil por Nélio Nicolai, brasileiro, residente em Brasília, vítima como tantos outros da falta de órgãos preparados e capazes de proteger a patente nacional brasileira.”
Por tudo isso, a conclusão do paraibano Reginaldo Marinho, autodidata que chegou até o terceiro ano da faculdade de Engenharia e até o segundo da de Arquitetura, é a de que o descaso do Brasil pela tecnologia brasileira se deve unicamente à preguiça e ao comodismo das suas lideranças políticas e econômicas. (A.N.)

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